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Educação

Eram os deuses liberais?

Por Andreas Müller

Algumas análises controversas sobre o capitalismo e seu impacto sobre a cultura valeram ao economista Tyler Cowen, professor da George Mason University, nos Estados Unidos, um convite para integrar o time de palestrantes da 24ª edição do Fórum da Liberdade, o tradicional evento liberal realizado em abril pelo Instituto de Estudos Empresariais, de Porto Alegre. Para Cowen, o avanço das sociedades capitalistas gera um fortalecimento indireto dos governos – processo que ele chama de “paradoxo do liberalismo” – e altera a dinâmica da diversidade cultural.

Veja o que ele diz:

Até que ponto a crise financeira global abalou a credibilidade dos ideais liberais?
Abalou muito, especialmente nos  Estados Unidos. Há forças antiliberais agindo com bastante contundência por aqui. Eu, particularmente, estou um pouco pessimista em relação ao nosso futuro, em relação às possibilidades de se expandir a liberdade na sociedade global. Onde estamos? O que podemos esperar? Eu penso que deveríamos buscar um equilíbrio maior. Entretanto, devido à eclosão da crise, as pessoas passaram a confiar menos nos mercados. No meu país, por exemplo, aquelas pessoas que você normalmente chamaria de liberais, a nossa ala direita republicana, ela simplesmente enlouqueceu. Mudou o discurso, passou a defender intervenções pontuais, mas ao mesmo tempo elevou o tom da intolerância a questões sociais. São coisas estranhas.


Tudo isso por causa da crise?
Acho que há outras razões. Penso que o mundo está passando por uma transição de elites, com os antigos liberais republicanos se tornando menos poderosos já faz algum tempo. O problema é que essa transição não está sendo tranquila e, na verdade, nem poderia ser. Os tempos econômicos são mais difíceis e, nesses períodos, há uma tendência de que as atitudes perante alguns grupos da base da pirâmide – como os imigrantes latinos, por exemplo – se tornem menos amigáveis.

Em 2007, você publicou um artigo sobre o “paradoxo do liberalismo”, mostrando que o avanço das sociedades capitalistas e liberais na verdade resulta em governos mais fortes e bem aparelhados. Podemos dizer que os governos estão melhorando na América Latina?
De fato, inúmeros indicadores mostram que as sociedades capitalistas são também as sociedades mais ricas. E que, quanto mais ricas são essas sociedades, maior é a capacidade que elas têm de financiar estruturas de governo. Se existe riqueza, as pessoas aceitam gastar parte dessa riqueza com os governos, até como forma de estabelecer cenários de maior estabilidade para a economia. Você paga mais impostos, você precisa de mais Justiça, mais marcos regulatórios – e tudo isso com mais eficiência. Esse processo paradoxalmente leva a um aumento do Estado. Os liberais sempre acreditaram que os governos atentam contra a liberdade. Eu proponho uma visão inversa: são justamente os avanços da liberdade que motivam o crescimento dos governos. É um paradoxo.


Mas, afinal, os governos estão, de fato, melhorando?
Isso depende. Desde que o mundo entrou nessa crise, os governos de todo o mundo têm adotado medidas diferentes. Aqui nos Estados Unidos, Obama tem se esforçado muito para socorrer o setor privado, o que é uma loucura se você considerar os ideais liberais. Ao mesmo tempo, vem tentando promover uma série de reformas sociais que deverão elevar demais o peso do Estado, em uma prova clara de que estão todos ficando malucos. Então eu não acho que o governo americano está melhorando. Pelo menos, não nos anos recentes. Mas, se analisarmos essa questão em perspectiva, veremos que hoje o governo americano é muito melhor do que o de 100 anos atrás. Está mais organizado e aberto, conta com melhores mecanismos de comunicação, tem mais conhecimento e melhores ferramentas para atender às demandas da sociedade.


E quanto ao Brasil?
O Brasil tem obtido grande sucesso com sua política econômica. O momento é muito bom para as empresas que atuam no setor de minérios, na agricultura e em algumas áreas mais básicas da indústria. É um momento de prosperidade – e, quando há prosperidade, as pessoas geralmente aprovam o governo. Mas é preciso ter consciência de que essa prosperidade é uma fase. Depois que ela passar, é provável que ocorram mudanças, e não necessariamente para melhor.


Ou seja: na sua visão, o Brasil está avançando “apesar” do governo...
Não exatamente. O Brasil está avançando porque conta com vantagens comparativas adequadas a este momento da economia global. Vocês estão se aproximando muito da China, com quem vocês têm grandes negócios em setores que são muito importantes na economia brasileira. O Brasil também está em um bloco de países que sentiu pouco os impactos da crise. Quem foi responsável por isso? Eu acho que foi apenas sorte. Não vejo melhorias de eficiência no governo brasileiro. O que vejo são alguns programas muito bem-sucedidos de redistribuição de renda, a começar  pelo Bolsa-Família. Mas para mim está claro que a prosperidade vem dos mercados globais, e não do governo.


No livro Creative Destruction (Destruição Criativa, ainda sem tradução no Brasil), você ressalta que globalização gera dois efeitos distintos: por um lado, aumenta a diversidade de escolhas de consumo para os indivíduos e, por outro, reduz a diversidade e cultural das sociedades. O saldo final dessa equação é positivo ou negativo?

Penso que é amplamente positivo. Hoje, quem viaja a São Paulo, a Washington ou a Pequim consegue encontrar muitas marcas e serviços globais. Você consegue consumir as mesmas comidas, comprar as mesmas roupas e ter acesso aos mesmos tipos de serviços. Evidentemente, a existência desses produtos e serviços acaba influenciando também nos hábitos locais. Se projetarmos no longo prazo, essas mudanças de hábitos acabam gerando novos padrões culturais. Por exemplo: se hoje eu viajasse no tempo e desembarcasse no Rio de Janeiro, em 1954, provavelmente eu encontraria lá somente alguns tipos de música – o samba ou, talvez, a bossa-nova. Da mesma forma, se fizesse o caminho inverso para Fairfax, aqui na Virgínia, não encontraria nada além de hambúrgueres e música country. Acho que a experiência até poderia ser divertida se você viesse como um turista. Mas, no dia a dia, as pessoas preferem ter opções.


Até que ponto a busca do desenvolvimento econômico e a globalização colocam em risco a diversidade cultural brasileira?
Eu não acho que essa busca represente um risco à diversidade cultural do Brasil. Eu diria que você está indo contra o que os mais conservadores chamam de diversidade. A cultura não é um conjunto estanque de valores, crenças, hábitos ou símbolos. Ela está sempre em mutação, sempre incorporando ou eliminando elementos de acordo com aquilo que as pessoas vivenciam no dia a dia. Isso é visível especialmente em países de culturas mais sólidas, como Rússia,  Índia, China – e também o Brasil. Eu sinceramente acredito que, nesses lugares, a cultura local está se fortalecendo, e não enfraquecendo. Eles podem ficar diferentes. É provável que você saiba de hábitos que estão deixando de existir por aí. Mas o resultado final desse processo continua sendo único. Aliás, as coisas sempre funcionaram assim. Historicamente, as culturas vão sendo forjadas pelas experiências e pelas trocas entre as diferentes sociedades. Os chineses, por exemplo, sempre souberam aproveitar as tecnologias mais modernas de fora para criar hábitos culturais muito peculiares. É algo que acontece ainda hoje, mas de forma mais intensa e global. A China não vai se transformar em uma extensão dos Estados Unidos. Nenhum país vai.

Mas e quanto às tradições culturais? Devemos esquecê-las?
Olhe para a história. Ao longo dos séculos, o mercado colocou as diferentes culturas em um contato cada vez mais intenso. O intercâmbio de mercadorias e de tecnologias gerou novos hábitos e deu origem a novas tradições. Mas a essência não se perdeu. Hoje, no Brasil, você continua tendo o samba e a bossa-nova. Ao mesmo tempo, novas correntes vão surgindo – sei que o funk  vem tendo uma influência muito grande aí. Talvez tenhamos misturas, mas os ingredientes continuarão existindo. Pegue o movimento Tropicália, por exemplo: ele sofre claras influências dos Beatles e do jazz norte-americano. Mas não é uma cópia, é algo genuinamente brasileiro.


Que tipo de sociedades tendem a emergir de um mercado totalmente globalizado?

Acredito que teremos sociedades com um melhor nível de vida, mais criativas e com padrões de consumo mais qualificados – afinal, as pessoas terão muitas escolhas. Culturalmente, as sociedades também serão mais ricas, com uma variedade maior de músicas para ouvir, filmes para assistir, lugares gratificantes para visitar etc.

Mesmo sabendo que o comércio é dominado pela China, um país fechado às liberdades individuais?
A China terá de mudar de estratégia em algum momento. Ninguém mantém um crescimento de dois dígitos por tanto tempo assim sem passar por um processo de abertura. E, na verdade, penso que esse processo já começou. Sou muito cético quanto à sustentabilidade da China no modelo que a consagrou.

Fonte: Revista Amanhã


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