Educação
Em busca da nova pedagogia
Comunicação instantânea, promoções relâmpago, notícias em primeira mão, vídeos inusitados e muito mais – na era das mídias sociais, vale tudo na disputa pela atenção do público. Entretanto, cientistas revelam que o uso de redes como Twitter, Facebook e Orkut tem efeitos colaterais preocupantes, especialmente para alunos do ensino superior. Um deles seria a piora do desempenho acadêmico devido à dificuldade de concentração, como revela um estudo da Open University, da Holanda, publicado em setembro, na revista científica Computers in Human Behaviour. Colocando em xeque teorias de que o cérebro do jovem moderno estaria adaptado a trabalhar com canais múltiplos de informação, a pesquisa constatou que os usuários das redes precisam de mais tempo para aprender e tendem a cometer um número maior de erros no processamento dos dados.
“A execução de diversas tarefas ao mesmo tempo causa a dispersão da atenção, que é a porta de entrada da memória. Sem atenção, não há conhecimento”, explica Walter Lima, pesquisador do Núcleo de Ciência Cognitiva da Universidade de São Paulo (USP). Para ele, a habilidade dos chamados multitaskers – aqueles que se dedicam a mais de uma atividade ao mesmo tempo – é um mito. “Você não dá conta de tudo. Você acha que dá. Não há comprovação científica de que isso é possível.” Lima pondera que a convivência na web restringe em vez de ampliar o senso crítico dos alunos. As redes tendem a submergir o usuário em uma zona de conforto frequentada somente por pessoas que pensam de forma semelhante – o que reduz a margem para o confronto de ideias e para a reflexão. “Afinal, não precisamos conversar com pessoas ou sobre assuntos de que não gostamos. Já a vida real nos obriga a conviver com a diversidade”, compara.
Para José Manuel Moran, diretor do Centro de Educação a Distância da Universidade Anhanguera-Uniderp, de São Paulo, a sociedade contemporânea enfrenta o fenômeno da dispersão e da superficialidade. “Nos detemos pouco em um determinado assunto. Todo mundo sabe um pouco sobre tudo, mas ninguém se aprofunda”, critica. Autor de diversos livros, como A Educação Que Desejamos: Novos Desafios e Como Chegar Lá, da Papirus Editora, Moran acredita que a perda de foco é um problema mais amplo e pode afetar todos que entram no mundo digital. “Vai levar certo tempo até que possamos equilibrar essa multiplicidade de estímulos e manter a capacidade crítica”, prevê. “Mas a época anterior à internet não volta mais.”
É um erro, porém, debitar os problemas de aprendizado dos alunos somente na conta das redes sociais. Muitas vezes, os jovens trazem essa dificuldade de casa e sofrem com as notas baixas independentemente do tempo que dedicam ao Facebook. Além disso, a falta de foco está longe de ser um desafio acadêmico – é uma questão que incomoda também crianças e adultos, inclusive no local de trabalho. “As novas mídias devem potencializar a informação. É lógico que as pessoas mais focadas saberão usá-las de uma melhor forma”, pensa Eduardo Pellanda, pesquisador e professor da Faculdade de Comunicação Social (Famecos) da PUCRS, em Porto Alegre.
"Na era das redes, o professor deve atuar como um facilitador do aprendizado – que deixa de ser unilateral e se torna coletivo".
O verdadeiro desafio que as redes sociais impõem ao aprendizado é o de controlar a informação. Usuários frequentes do Orkut, do Twitter e de outras redes tendem a submergir em um verdadeiro dilúvio de informação, que pode não só levar a uma perda na capacidade de aprender, mas também à exaustão e ao estresse. Nesse contexto, tendem a se sobressair aqueles que souberem enfrentar a enxurrada de dados, controlando o ímpeto de responder a qualquer mensagem, foto ou vídeo postado por amigos. Para o jornalista e professor universitário Militão de Maya Ricardo, quem conseguir tomar as rédeas da informação tende a percorrer um caminho promissor de aprendizado. “As redes sociais representam uma profunda mudança na comunicação pessoal e profissional. As distâncias geográficas são vencidas, amigos se reencontram, negócios são feitos e mais empresas conversam com seus consumidores”, defende ele.
Mas vale a pena permanecer on-line na hora de estudar? “Acho que mais atrapalha do que auxilia, porque, por mais que eu utilize o MSN para tirar dúvidas com os colegas, eu acabo me entretendo mais com os amigos, deixando de estudar o tempo devido”, reconhece Higor Brusch Daros, aluno do curso de Engenharia Elétrica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Ao 21 anos, Higor destina pelo menos uma hora por dia aos afazeres acadêmicos e utiliza sites como Orkut e Facebook para manter contato com os amigos que moram longe e marcar compromissos. A navegação virtual absorve pelo menos quatro horas semanais, pelos seus cálculos.
Debruçar-se sobre livros também é fundamental para a estudante de Medicina Veterinária da Universidade Regional de Blumenau (Furb), Drusiani Jhenifer Lauer Rocha, 18 anos. Usuária mais frequente das redes, ela permanece conectada à internet pouco mais de 2 horas por dia, tempo que é gasto em conversas com amigos e familiares e com a busca de informações. Aos estudos, ela admite dedicar menos tempo – cerca de 40 minutos. “Fico conectada para pesquisar e estudar, mas algumas vezes isso atrapalha. Acho que prejudica porque me distraio vendo outras coisas. O lado bom é que fico atualizada sobre diversos assuntos”, relata.
A reinvenção do ensino
E como evitar que os alunos se tornem reféns das redes? É consenso entre os especialistas que os novos tempos exigem uma revolução no ensino e que o poder de sedução das mídias sociais deveria ser o principal aliado do aprendizado. Unir a educação formal à informal é o desafio. “As pessoas devem tomar consciência dos prejuízos da falta de disciplina e, ao mesmo tempo, as universidades precisam trabalhar seu plano pedagógico. A educação tradicional tem de se reinventar e criar situações em que os novos meios façam sentido”, defende Moran.
Pellanda, da PUCRS, entende que o ensino formal deve ser pensado de uma maneira mais partilhada, levando-se em conta a possibilidade de se construir uma inteligência coletiva – ou social. “Aprende-se na coletividade. Neste contexto, as redes sociais só têm a colaborar.” Nessa espécie de nova pedagogia, os alunos assumem um papel mais ativo na busca e na construção de conhecimento. “A comunicação nas redes é mais horizontal, compartilhada e com a possibilidade de contato entre pessoas muito distantes. O professor precisa ser mais um orientador, um moderador ou, enfim, um facilitador de aprendizado”, pensa Militão Ricardo, que também coordena o MBA em Jornalismo Digital da Esade, em Porto Alegre. O ponto-chave é se apropriar das redes sociais de forma eficiente. “A bola não está na mão da tecnologia e, sim na de quem a consome. As máquinas são essenciais para o auxílio e devem ser usadas com parcimônia”, diz Walter Lima.
Informações do curso
Modalidade: Lato Sensu
Duração: 29 meses
Carga Horária: 400 horas
Dias e horários: sábados das 9h às 13h e das 14 às 17h. Quinzenalmente
Mensalidade: 1 + 25 de R$ 507,00 - Total: R$ 13.182,00
