Educação
O mito da paixão pelo trabalho
É prática corrente entre as grandes empresas americanas recrutar novos funcionários nos campi das grandes universidades, especialmente aquelas que oferecem os melhores programas de MBA. Geralmente, elas vão até a escola, fazem uma breve apresentação da companhia e abrem as inscrições para os candidatos a uma vaga. Nessas ocasiões, as empresas têm de "vender seu peixe" para atrair os melhores alunos, mostrando-se organizações nas quais vale a pena construir uma carreira.
E como elas fazem isso?
Falando de paixão. Ou melhor, dizendo-se, invariavelmente, apaixonadas pelo que fazem.
É o que afirma Philips Broughton, autor de "Ahead of the curve", livro sobre seus dois anos como aluno de MBA de Harvard. Nele, o autor comenta – com estranhamento e desconfiança – o discurso padrão das empresas que iam a Harvard recrutar seus estudantes:
"Terceirização é a nossa paixão"
"Sistemas de gestão empresarial são a nossa paixão"
"Atender clientes é a nossa paixão"
O autor não deixa de refletir sobre essa paixonite corporativa:
"Mas paixão não é uma sensação fugidia, que a maior parte dos humanos terá sorte se experimentá-la uma vez na vida? Talvez os grandes homens de negócio, aqueles que vivem dominados pelo seu trabalho, compartilhem dessa paixão. Mas e o restante de nós?"
O próprio autor mata a charada no parágrafo adiante:
"Um punhado de poucas almas sortudas podem sentir paixão genuína pelo seu trabalho, mas as empresas costumam falar tão repetidamente sobre isso porque se trata de um objetivo mais suave do que falar, meramente, em lucros. Estar no mundo dos negócios apenas para fazer negócios não é suficiente. Você tem que estar nele por algo maior".
Sempre estranhei muito quem diz que sente paixão pelo que faz. Acredito até que algumas pessoas possam gostar daquilo que fazem, mas que, na maior parte das vezes, elas gostam mais da sensação de se sentirem úteis, de conviver com os colegas e de conquistarem certas coisas por meio do trabalho – dinheiro, prestígio, reconhecimento, gratidão de alguém a quem ajudaram etc. Mas paixão pela atividade em si, pela rotina e tudo mais que ela representa... não. Sinceramente, não consigo imaginar que sejam apaixonadas por isso.
São os subprodutos da atividade profissional, para terceiros e para si, ou aquilo que as circundam, que motivam as pessoas e, quem sabe, até as apaixonam. Como disse certa vez Cláudio Abramo, um dos decanos do jornalismo brasileiro: "[o jornalista] tem que ter uma certa paixão; não pela profissão, que isso é besteira, mas deve ser capaz de sentir as coisas como elas são, ou com a intensidade que ela devem ter".
Acho que é por aí.
Informações do curso
Modalidade: Lato Sensu
Carga Horária: 390 horas
Mensalidade: 1 + 25 de R$ 386,47 - Total: R$ 10.048,15

