Educação
O sucesso do fracasso
Na Revista AMANHÃ de novembro, há uma referência a um curioso "Congresso do Fracasso", realizado em outubro último, na Califórnia. O propósito do evento foi enaltecer o valor da tentativa – ainda que malfadada – no processo de inovação. Dado que o encontro ocorreu no Vale do Silício, berço das maiores inovações tecnológicas da nossa era, há de se concordar que os organizadores e participantes tinham conhecimento de causa suficiente para se permitir celebrar algo que, em ambientes menos arejados intelectualmente, seria motivo de vergonha.
Em qualquer outro lugar dos EUA, aliás, provavelmente esse evento não se realizaria. A separação entre vencedores e perdedores é um traço típico da cultura americana nascido nos idos de 1800. Antes disso, fracassar era algo que simplesmente acontecia, lembra a colunista Julia Baird, da Newsweek (20/09/10); a partir daquele século uma série de fatores fez mudar a feição da derrota, a ponto de torná-la sinônimo de deficiências pessoais. Daí para se tornar uma pecha sobre os indivíduos, foi um passo.
Quando li a respeito disso, lembrei imediatamente de João do Amaral Gurgel, engenheiro paulista criador de uma fábrica de automóveis com o seu sobrenome nos anos 70 (e fechada em 1994). Gurgel foi o responsável por uma iniciativa que, se tomada hoje, seria ousada; à época, era simplesmente uma loucura: criar uma montadora 100% brasileira. Gurgel não só encampou essa "maluquice" como a fez perdurar por duas décadas, vendendo 40 mil veículos no período. Criou carros compactos e funcionais em uma época em que nem se falava em praticidade; fez o protótipo do primeiro carro elétrico quando ninguém sabia o que era sustentabilidade; e desenvolveu modelos especialmente talhados para rodar nas más condições das estradas brasileiras. Um gênio empreendedor, em suma.
Um gênio que fracassou, no entanto – ao menos no sentido estrito da palavra. A Gurgel não resistiu aos novos tempos da economia brasileira e teve de fechar as portas. Mas nem é preciso condescendência para afirmar que João Gurgel foi, sim, um vencedor. A despeito do seu negócio não ter perdurado, a aventura de colocar um carro 100% nacional no mercado e de "peitar" as quatro grandes montadoras por anos tem um quê de heróico – e guarda muito mais mérito do que muitas trajetórias ditas bem sucedidas que vemos por aí. Por que não render homenagens a esse homem, então?
Ousando um pouco – mas não tanto quanto Gurgel ou o pessoal do Vale do Silício –, desejo um 2011 repleto de fracassos construtivos a todos.
Informações do curso
Modalidade: Lato Sensu
Carga Horária: 390 horas
Mensalidade: 1 + 25 de R$ 386,47 - Total: R$ 10.048,15

