Educação
Salvem o planeta de quem diz querer salvá-lo
Um dos grandes objetivos dos defensores de causas ambientais é fazer com que suas ideias entrem na pauta da grande imprensa. Virar manchete de jornal, capa de revista e de matéria na TV é a senha para fazer parte da paisagem cultural: somente aquilo que é referendado pela mídia existe de fato, enquanto atividade social relevante.
Esse privilégio foi conquistado pela causa da sustentabilidade nesses últimos dois anos. Um conjunto de razões - o filme de Al Gore, os relatórios do IPCC, alguns desastres ambientais de grande repercussão - fez com que, enfim, fosse conferida a visibilidade pretendida pelos seus militantes, de maneira que esse, hoje, é um tema candente.
Trata-se do cenário sonhado por qualquer militante do meio-ambiente, certo? Nem tanto. Como não poderia deixar de ser, não tardou para que a causa fosse apropriada pelo establishment: empresas anunciam pencas de ações verdes, supostos produtos ecológicos são lançados todos os dias, correntes de dicas sustentáveis inundam a Internet - e a grandes imprensa se refestela, emulando mudanças de comportamento para a pretensa "nova era".
O problema é que, diferentemente de outras causas, a da sustentabilidade constitui um desafio que, em tese, demanda subverter a lógica da sociedade capitalista atual. Sua demanda é menos por inserção no "sistema" do que por sua negação: para além das cartilhas de comportamento verde, pretende a reforma do paradigma de progresso e desenvolvimento em voga. O risco que corre, ao proliferarem "práticas sustentáveis" entre empresas e sociedade, é ver as consciências em crise se aliviarem, enquanto o desastre ambiental evolui sem ser molestado.
A sustentabilidade é uma causa essencialmente impopular, pois diz respeito a restringir vontades pessoais imediatas em nome de benefícios coletivos futuros - sendo que os sacrifícios são muito claros (usar menos o carro, retornar garrafas de vidro, carregar a própria sacola de palha), enquanto os ganhos serão perceptíveis somente a longo prazo (e possivelmente só pelas próximas gerações). Trata-se de uma causa que exige mobilização e sacrifício coletivo - circunstância perfeita para que não passe jamais das boas intenções.
Qual a solução, então? O economista Eduardo Giannetti lembrou, em entrevista publicada no Estadão anos atrás, que, "muitas vezes, a preservação da liberdade requer um cerceamento de aspectos dessa liberdade". Ou, como bem escreveu o colunista britânico George Monbiot, "na falta de ação governamental, ambientalismo é, e sempre será, para as outras pessoas. (...) Se nós queremos mudar o mundo, devemos forçar os governos a forçar-nos a mudar nosso comportamento". (New Statesman, 04/07/2005).
Por isso, há que se ver com reservas a popularidade que o tema sustentabilidade adquiriu recentemente; as boas intenções da mídia e do marketing hoje são verdes, mas amanhã poderão não ser. Para não correr o risco de ver sua causa virar bibelô de marqueteiro, os ambientalistas devem resgatá-la das mãos daqueles que se apropriaram dela - e levar suas reivindicações para a arena da política tradicional. Valer-se da repercussão do tema na grande mídia e na publicidade é um trunfo nesse processo, sem dúvida, mas recurso insuficiente para a batalha.




